Lições aprendidas para a garantia de um censo de qualidade

por Gabriel Borges

Um censo demográfico de qualidade requer, minimamente: cartografia e listagem de domicílios atualizadas; organização logística e operacional; clareza e consistência conceitual; boa capacitação; supervisão dos trabalhos de campo; estratégia de comunicação e sensibilização; qualificação dos recenseadores (UNSD, 2017; CEPAL, 2011; DANE, 2014).

O cumprimento desses requisitos depende, contudo, de questões estruturais do Instituto Nacional de Estatística (INE) que executa o censo e das condições oferecidas pelo poder público e sociedade que o apoiam.

Este post discute brevemente algumas das reflexões que fizemos (Borges e Sacco, 2016) sobre a qualidade dos censos na América Latina à luz do planejamento da rodada 2020, indicando que crises econômicas, políticas e institucionais, eventos recorrentes na região, são fatores que têm afetado a qualidade dos censos demográficos.

Argumentamos que avanços tecnológicos, que sempre foram uma das principais esperanças de aprimorar diversos processos dos censos, não parecem afetar necessariamente sua qualidade. O mesmo vale para o financiamento do censo: ainda que restrições orçamentárias possam prejudicar a sua qualidade, a disponibilidade de recursos, de forma alguma, é garantia de um censo satisfatório.

A última rodada de censos na América Latina teve alguns inconvenientes, e foi agravada por: falta de recursos humanos e financeiros; falta de autonomia dos institutos de estatística; dificuldades de coordenação do censo dentro dos sistemas nacional e internacional de estatística (DANE, 2014). Os principais exemplos de fracasso são os censos do Chile e do Paraguai, ambos realizados em 2012. Esses casos merecem ser estudados com o intuito de reunir lições aprendidas e identificar riscos que podem ser mitigados nos próximos projetos censitários na América Latina.

O Censo 2012 do Paraguai é um caso raro, se não único, de subenumeração de mais de ¼ da população. Esse censo foi marcado por dificuldades de toda ordem. Apesar de algumas inovações, como o uso de Dispositivos Móveis de Captura (DMC), mudança para um censo de direito, melhor capacitação e remuneração dos recenseadores, o censo fracassou. Os principais fatores que afetaram o desenvolvimento da operação foi o atraso na disponibilização dos recursos; problemas administrativos com contratação de recenseadores; crise política e mudança de governo durante o censo (DANE, 2014). Todas essas dificuldades foram potencializadas por problemas estruturais do sistema estatístico nacional, representado pela debilidade do INE do país (DGEEC). O DGEEC sofre com falta de recursos humanos e financeiros, tendo uma estrutura orçamentária e de pessoal muito mais modesta do que a outros países latino-americanos, mesmo se comparada com a daqueles países em condições socioeconômicas similares (IDB, 2011).

No caso do Chile, a falta de planejamento, organização e gestão do Censo 2012 foi crucial para o seu desfecho. Mais especificamente, a decisão de mudar o formato do censo de “de fato” para “de direito” com menos de um ano de intervalo para a data do censo e todas as consequências decorrentes dessa decisão parecem ter sido decisivas para o seu fracasso (Bravo et al., 2013). Os questionários tiveram que ser revisados para dar conta dessa transformação, sem tempo suficiente para validar as novas perguntas. Esta decisão não parece ter sido puramente técnica, mas também parte de estratégias políticas (Yuri e Carlos, 2014).

A qualidade dos censos na América Latina tem sido afetada por questões conjunturais, como crises política, econômica e institucional. Além disso, os aspectos estruturais relativos à organização dos INEs também têm desempenhado um papel importante na sua qualidade. Depreende-se de experiências passadas que investimentos consistentes e de longo prazo para desenvolver sistemas estatísticos nacionais sólidos, em que os órgãos de estatística desempenham um papel essencial, são fundamentais para a garantia da qualidade de um censo. Isso envolve, entre outras coisas, assegurar recursos financeiros e humanos para sua estruturação. Além disso, os censos devem ser devidamente planejados e ter garantida a execução do projeto técnico preconcebido, incluindo seu desenho conceitual e suas necessidades orçamentárias.

Referências

CEPAL (2011). Guía para asegurar la calidad de los datos censales, Santiago de Chile, Centro Latinoamericano de Demografía (Series de la CEPAL). Disponível em: http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/2/45612/manuales74.pdf

DANE, UNFPA (2014). Taller Experiencias de los Censos de Población y Vivienda de la Ronda de 2010 – Documento Memorias. Bogotá, Colombia. Disponível em https://lac.unfpa.org/sites/default/files/pub-pdf/Memorias%20Taller%20Censos%20Poblacion%20Bogotá%202014.pdf

IDB (2011). Program to Develop the National Statistical System Through the 2012 Population and Housing Census.

Borges, G. y Sacco, N. (2016). Has census coverage in Latin America improved with time?. International Seminar on Registering and Counting the Population: The production and exploration of census information from early modern times to the end of 20th century. Unicamp, Nepo, IUSSP, Campinas – Sao Paulo.

UNSD (2017). Principles and Recommendations for Population and Housing Censuses, Rev.3. Disponível em: https://unstats.un.org/unsd/publication/seriesM/Series_M67Rev3en.pdf, New York, 2017

Yuri, C.B., Carlos, H.F. (2014). Censo de población chileno 2012: de la frialdad cuantitativa a las pasiones estadísticas. Estatística e Sociedade.

Un pensamiento en “Lições aprendidas para a garantia de um censo de qualidade

  1. Gabriel, estou totalmente de acordo com sua análise. Somente gostaria que pudéssemos discutir mais amplamente dois aspectos. 1. Sobre avanços tecnológicos. Você diz que estes parecem não afetar necessariamente a qualidade dos censos. Acho que isto precisa melhor avaliado com os paradados das pesquisas por dois motivos. Primeiro, porque se espera que a tecnologia pudesse melhorar a qualidade dos dados, pelo uso adequado de controles de campo e supervisão, mas precisa ser bem utilizado para não atrapalhar mais do que ajudar. Um bom exemplo disto é a piora na coleta da informação sobre deficiência visual coletada no censo demográfico de 2010 do Brasil, que encontrou alto percentual de pessoas com deficiência visual (precisa ser avaliado se foi o uso da tecnologia pela forma de perguntar de forma vertical ou se erro de treinamento). Por outro lado, o próprio uso da nova tecnologia foi o que acabou tendo um efeito enorme na perda dos censos do Paraguai e do Chile. Ambos mudaram de censo de fato (pessoas presente) para censo de direito por causa da introdução da tecnologia (PDA). Assim, mesmo que tenha sido por problemas financeiros e de gestão, a causa primordial foi o uso inadequado da tecnologia (mal planejada). 2. O segundo ponto que precisamos discutir, relacionado ao primeiro é sobre garantia de “execução do projeto técnico preconcebido”. O exemplo do Chile é chave neste ponto. O INE preconcebeu um projeto que foi previamente criticado que não daria certo, mas pela autonomia do INE este foi executado como preconcebido e o resultado foi jogar o recurso e o tempo fora e voltar ao modelo antigo em 2017. Acho que a rede ProDatos da ALAP pode colaborar muito com os países na discussão qualificada sobre estes temas. Espero que possamos fazer o seminário este ano ainda. Abraços
    Suzana

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